Como está a vida em vilarejo do Ceará um ano depois de saída em massa de moradores devido à disputa de facções

  • 16/07/2026
(Foto: Reprodução)
Como está a vida em vilarejo do Ceará 1 ano depois de saída em massa de moradores O distrito de Uiraponga, na cidade de Morada Nova, no interior do Ceará, que chegou a se tornar um território-fantasma com a saída em massa de moradores expulsos devido à disputas entre facções criminosas, vive um processo de retorno gradual da população e revitalização da comunidade. Embora não tenha voltado completamente à normalidade de antes. O g1 esteve na comunidade nesta segunda (14) e terça-feira (15) e acompanhou, em diferentes períodos dos dias, como as famílias vivem no local, um ano depois dos episódios de violência que mudaram a rotina da comunidade interiorana. ✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 Ceará no WhatsApp A polícia prendeu 13 suspeitos de envolvimento com as expulsões dos moradores de Uiraponga e reforçou o policiamento do distrito (leia mais sobre essas medidas abaixo), para garantir o retorno com segurança da população. A Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social do Ceará (SSPDS) informou que não foi registrado nenhum homicídio no distrito, em um ano. Distrito de Uiraponga, em Morada Nova, tem retorno gradual dos moradores um ano após vilarejo ser esvaziado em meio a disputa de facções criminosas no Ceará. Thiago Gadelha/SVM O distrito também virou centro de debate político na última semana, após o deputado federal André Fernandes (PL) acusar o Governo do Ceará de usar "moradores fakes" para ocupar as ruas do vilarejo e comemorar a volta da população, enquanto o local continuava sendo uma "cidade-fantasma". O governo estadual foi procurado para comentar a denúncia feita pelo deputado federal, mas não enviou resposta até a publicação desta matéria. A prefeita de Morada Nova, Naiara Castro (PSB), rebateu as acusações do deputado da oposição nas redes sociais e garantiu que mais de 80 famílias já retornaram ao distrito, segundo o levantamento feito por nove agentes de saúde que atendem à comunidade. Esse retorno se intensificou em junho deste ano. Movimentação no distrito Ruas principais de Uiraponga têm maior fluxo de moradores, enquanto as ruas secundárias ainda possuem muitas residências fechadas. Thiago Gadelha/SVM Ao andar pelas ruas de Uiraponga é possível perceber a retomada da rotina pelas famílias que voltaram a morar no distrito. Em uma das ruas principais, moradores estavam sentados nas calçadas, outros conversavam na frente do bar que estava aberto e tinha quem preferisse se exercitar ao ar livre. Enquanto isso, as crianças brincavam na praça. Embora tivesse fluxo de moradores, o ambiente mudava conforme a reportagem adentrava nas vias secundárias, que, em contraste do que foi visto do primeiro momento, ainda abrigavam muitas casas fechadas e com pouca movimentação na via. Essa diferença ficou ainda mais visível ao anoitecer, quando as ruas com mais moradores estavam iluminadas e movimentadas; e as vias secundárias, estavam desabitadas e escuras. À esquerda: uma das ruas principais de Uiraponga, iluminada e com maior fluxo de moradores. À direita: rua secundária do distrito, com baixa iluminação, residências fechadas e pouca movimentação. Thiago Gadelha/SVM Além disso, alguns imóveis ainda possuem marcas de tiros nas fachadas - resquícios do período mais violento. Nas residências já reabitadas, os moradores realizaram reparos para fechar os buracos, deixando as marcas apenas na memória. Entre esses moradores, está a auxiliar de serviços gerais Cínthia Paula Silva Oliveira, de 40 anos, que teve que sair da residência com a família em julho de 2025, quando os confrontos entre criminosos se intensificaram, e foi morar na sede de Morada Nova - a cerca de 23 quilômetros de distância do vilarejo. "A gente saiu por medo, por falta de segurança, mas como tenho minha casa, tenho meus parentes, pois nasci e me criei aqui, sempre ia [para sede] e voltava [ao distrito]. Mesmo antes de voltar a morar, vinha dormir alguns dias ou no fim de semana", contou Cínthia. Com o reforço do policiamento na região e a reabertura do posto de saúde da comunidade (em março deste ano), onde Cínthia trabalha, ela voltou a morar em Uiraponga. Nesse retorno, ela encontrou um cenário bem diferente do período em que o distrito abrigou mais de 2 mil moradores. "Nos primeiros dias, quando eu voltei, a gente sentava nas calçadas, mas não tinha mesmo ninguém. Você olhava para cima e para baixo e não via uma pessoa. Tinha morador, nunca ficou sem, mas eram poucos. Você não via esse trânsito de gente, hoje é outra realidade. Voltaram poucas [pessoas], voltaram, mas hoje é outra realidade depois do acontecido”, relatou Cínthia Paula. A auxiliar de serviços gerais rejeita o rótulo atribuído a Uiraponga de "cidade-fantasma". "Se for um [vilarejo] fantasma, eu sou um [fantasma], porque eu estou aqui desde março”, disse com bom humor a moradora. Professor e articular cultural, Jonh Darly, defende que o vilarejo está em um "processo de retomada". Thiago Gadelha/SVM Para o professor e articular cultural Jonh Darly, o vilarejo está em um "processo de retomada", impulsionado pelas obras de infraestrutura, reforço na segurança e eventos culturais. "Uiraponga vive sim. Pode não ser como antes. Teve época da gente ter essas ruas completamente lotadas, mas a gente vem nesse processo de esvaziamento a muito tempo, até acontecer o que aconteceu", afirmou Jonh Darly. O docente morou no distrito até julho do ano passado e, assim como outras pessoas, saiu do vilarejo para fugir da escalada da violência e foi para a sede da cidade. Porém, diferente dos familiares, ele ainda não retornou em definitivo, mas vai ao local diariamente. "A gente nunca quis sair aqui, mas infelizmente precisou. Quem está se sentindo à vontade vai voltar, e a gente precisa respeitar também quem não quer voltar", disse o professor. Comércio volta ao poucos Atualmente o comércio de Uiraponga é composto de duas mercearias e um bar, sendo este último o ponto de encontro para diversão dos moradores. Thiago Gadelha/SVM O comércio local foi diretamente afetado pela violência que causou a saída em massa das famílias. Antes dos confrontos, segundos os moradores, o distrito tinha vários estabelecimentos e duas padarias em funcionamento. Agora em julho de 2026, durante a visita do g1, apenas duas mercearias e um bar funcionavam no distrito. Um desses estabelecimentos nunca fechou, pois a proprietária permaneceu no distrito mesmo quando poucas casas estavam ocupadas. O local comercializa cereais em geral, como arroz e feijão, além de bolachas, refrigerantes e produtos de limpeza. "Tudo o que a gente tem é aqui. Tudo o que a gente construiu é aqui. Como é que a gente iria sair assim de repente?!", falou a comerciante, que não quis ser identificada. Francisco Clerto de Oliveira, 63 anos, reabriu em março de 2026 o bar que funcionou por 20 anos em Uiraponga. Lena Sena/ g1 Diferente dela, Francisco Cleto de Oliveira, 63 anos, se viu obrigado a fechar o bar que funcionava há mais de 20 anos na comunidade para ir morar com a família na sede do município. "Fechei e fui embora para Morada Nova [sede]. Voltei em março deste ano e fiquei direto. Tudo o que tinha levei, deixei só o prédio fechado e, quando voltei, estava do mesmo jeito. Quando saí daqui montei um barzinho lá", falou Francisco Clerto. Há 4 meses, o Bar do Cleto voltou a ser o ponto de encontro dos moradores que retornaram para Uiraponga, e o comerciante já percebeu uma melhora nas vendas. "Quando cheguei aqui estava pouca gente, depois foi melhorando. Já melhorou muito, estou vendendo mais do que quando eu estava aqui antes", disse Clerto de Oliveira. 'Sou feliz aqui' Aurino Bento abriu uma mercearia ao voltar a morar no distrito de Uiraponga. Lena Sena/ g1 Quando retornou para o distrito, há cinco meses, Aurino Bento, de 65 anos, também viu no comércio uma oportunidade para o recomeço e montou uma mercearia no vilarejo. O local, que divide espaço com a residência do homem, vende de sandálias a produtos de higiene e não tem horário fixo de funcionamento. "Acho que não tem ninguém que goste mais desse lugar do que eu. Pode até ter igual, mas mais do que eu não tem. Decidi voltar por esse motivo, nasci aqui, me criei aqui, sou feliz aqui. O movimento não é muito, mas dá para 'ir levando'. Não é para 'enricar' não, é só para a gente comemorar a vinda à Uiraponga", disse com entusiasmo Aurino Bento. Serviços públicos Posto de saúde de Uiraponga reabriu em março de 2026, com atendimento de médico, enfermeira, dentista e outros serviços de saúde. Thiago Gadelha/SVM O posto de saúde, que chegou a ser transferido para a sede do município durante o ápice da crise de segurança no distrito, voltou a funcionar diariamente no mês de março. Antes disso, abria quinzenalmente ou uma vez na semana. Durante a ida do g1 à unidade, a equipe de saúde não estava no local. Na ocasião, as outras funcionárias do posto informaram que a equipe havia saído para fazer visitas nas comunidades vizinhas, o que ocorre uma vez na semana. Ainda conforme as funcionárias, no dia dessas visitas, o posto fica aberto para entrega de medicamentos e encaminhamento dos casos mais graves para a Upa de Morada Nova. Quando necessário, o transporte dos pacientes para a sede é feito pelo Carro da Saúde, disponibilizado pela prefeitura. Os serviços de limpeza pública do vilarejo também ocorrem normalmente, com trabalhadores nas ruas e nas praças que fazem o recolhimento do lixo. A escola do distrito também reabriu e voltou a receber os alunos, que tinham sido transferidos temporariamente para outro colégio. Já o posto dos Correios permanece fechado, mas as correspondências chegam para os destinatários através de um funcionário que recolhe as cartas na sede e as encaminha para o distrito, de acordo com os moradores. Policiamento reforçado Polícia Militar realiza rondas pelo distrito diariamente, para coibir os crimes na região. Thiago Gadelha/SVM O policiamento em Uiraponga foi reforçado logo após a saída das famílias e ao menos duas viaturas fazem rondas pelas ruas da comunidade, diariamente. A Polícia Militar também instalou uma base fixa, com um contêiner, no ginásio do distrito. O local é provisório, até a conclusão da construção do destacamento da polícia. Uma base fixa da Polícia Militar foi instalada no ginásio de Uiraponga e diariamente os agentes fazem rondas na comunidade. Thiago Gadelha/SVM De acordo com a Secretaria da Segurança Pública, desde julho de 2025, Uiraponga não registrou nenhum caso de Crime Violento Letal e Intencional (CVLI) - que incluem homicídios dolosos, feminicídios, lesões corporais seguidas de morte e latrocínios. Ainda conforme a pasta, o distrito possui um efetivo de 148 policiais, divididos entre agentes da Polícia Militar e da Polícia Civil, além de viaturas e motos para patrulhamento. Também houve a instalação de câmeras de videomonitoramento, que auxiliam nos trabalhos da polícia. "As ofensivas empreendidas também são realizadas, por meio das Coordenadorias de Inteligência (Coin/SSPDS) e de Planejamento Operacional (Copol/SSPDS), para coibir episódios de ameaças e deslocamentos forçados de moradores, que já resultaram nas capturas de 13 suspeitos. Um dos presos, apontado como um dos mandantes dos crimes na região, foi localizado e capturado em julho de 2025, em São Paulo", disse a Secretaria da Segurança. Melhorias na infraestrutura Distrito está passando por uma série de intervenções na infraestrutura, que faz parte do plano de ação conjunto entre a prefeitura e o Governo do Estado. Thiago Gadelha/SVM Com o retorno da população, o distrito passa por uma série de intervenções na infraestrutura. A iniciativa faz parte do plano de ação conjunto entre a prefeitura e o Governo do Estado, que anunciou o envio de R$ 25 milhões para investimentos na região. Tratores, caminhões e outras máquinas pesadas estão nas ruas, nos últimos dias, para preparar o terreno para a instalação do piso intertravado na comunidade. "O distrito está sendo retomado, está vivendo um recomeço. Não que ele está em perfeito estado e que as famílias estão em perfeito estado, não. Mas que existiu esse recomeço e isso está sendo construído, graças a Deus, graças ao poder público. Hoje nós temos mais de 82 famílias", afirmou a prefeita de Morada Nova, Naiara Castro. Outra obra prometida, que já teve a ordem de serviço assinada pelo governador do Ceará, Elmano de Freitas, é a pavimentação asfáltica da estrada que liga Uiraponga à sede de Morada Nova. "A estrada é uma obra transformadora, é um sonho muito antigo dessa comunidade. São mais de 20 quilômetros de pavimentação asfáltica, uma obra de mais de 20 milhões de reais, que a gente conseguiu junto ao Governo do Estado. Essa obra vem acontecendo do distrito para a sede, com a geração de empregos", destacou a prefeita. Conforme Naiara Castro, antes dessas ações, a prefeitura enfrentou muitos desafios para atender as famílias que tinham deixado o distrito. "Mesmo com muito receio, com muito cuidado e muita discrição nós buscamos as soluções. Enquanto muitos falavam dos problemas, vinham aqui, usavam Uiraponga como palanque político, a gente buscava as soluções. Em parceria com a prefeitura, nós conseguimos trazer grandes obras, grandes ações e começar a devolver essa paz, a dignidade que esse povo tanto precisa", afirmou Naiara Castro. Assista aos vídeos mais vistos do Ceará

FONTE: https://g1.globo.com/ce/ceara/noticia/2026/07/16/como-esta-a-vida-em-vilarejo-do-ceara-um-ano-depois-de-saida-em-massa-de-moradores-devido-a-disputa-de-faccoes.ghtml


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