Fábrica de artistas: Grande Bom Jardim fortalece produção cultural na periferia de Fortaleza
05/04/2026
(Foto: Reprodução) Centro Cultural Bom Jardim estimula protagonismo popular na Regional 5
Na região do Grande Bom Jardim, na parte sudoeste de Fortaleza, projetos culturais e iniciativas sociais vêm transformando o território em uma referência na formação de artistas. A área reúne bairros com baixa renda média e desafios históricos de infraestrutura, mas se destaca pela força da produção cultural local.
O Grande Bom Jardim está localizado na Regional 5 de Fortaleza, que reúne os bairros Bom Jardim, Granja Lisboa, Granja Portugal, Siqueira e Bonsucesso.
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Todos os bairros da Regional 5 têm Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) inferior a 0,500, considerado muito baixo. Mesmo assim, a região mantém uma forte mobilização comunitária.
Equipamentos públicos, coletivos e organizações sociais atuam em rede para oferecer formação artística, ampliar o acesso à cultura e criar espaços de pertencimento. Nesse contexto, o Grande Bom Jardim se consolida como um território criativo, onde a cultura tem papel central na construção de identidade e desenvolvimento.
Cultura como política pública e transformação
Centro Cultural Bom Jardim oferece programação diversa no bairro.
Ismael Soares/SVM
Um dos principais símbolos dessa atuação é o Centro Cultural Bom Jardim (CCBJ). Inaugurado em 2006, foi o primeiro equipamento cultural público de Fortaleza fora do eixo turístico, ampliando o acesso à cultura na cidade.
Desde então, o CCBJ se consolidou como um polo de formação artística e convivência comunitária, recebendo mais de 50 mil pessoas por ano. O espaço oferece cursos gratuitos de teatro, dança, música, audiovisual e cultura digital. As atividades atendem de crianças, a partir dos 11 anos, a adultos que chegam à formação técnica.
O superintendente do CCBJ, Marcos Levi, afirma que o espaço vai além da formação técnica. Segundo ele, o objetivo é valorizar saberes locais e estimular o protagonismo dos moradores.
"O Centro Cultural é do Grande Bom Jardim, para o Grande Bom Jardim e com o Grande Bom Jardim”, afirma.
Além dos cursos, o CCBJ mantém uma programação cultural gratuita, com shows, espetáculos e oficinas abertas ao público.
Segundo Marcos Levi, as atividades ajudam a afastar crianças e jovens da violência urbana. Ele também destaca o impacto econômico: cerca de R$ 1 milhão é investido no território por meio de bolsas culturais, valor que acaba sendo revertido em consumo dentro da própria comunidade.
O CCBJ também desenvolve ações voltadas à cidadania, com acolhimento e encaminhamento de casos de vulnerabilidade social, em articulação com a rede de proteção.
Nossas prioridades são claras: o território do Grande Bom Jardim, a comunidade negra, o público LGBTQIAPN+ e pessoas em vulnerabilidade. Além disso, priorizamos a contratação de moradores do território; a maioria dos profissionais vive aqui e muitos foram alunos do centro. Antes de lançar editais, muitas vezes perguntamos à comunidade quais cursos eles desejam.
Audiovisual que nasce da periferia
Bom Jardim Produções cria produções audiovisuais com a participação da comunidade
Divulgação
Outra iniciativa é a Bom Jardim Produções, produtora audiovisual criada a partir de um coletivo local. O grupo surgiu no teatro, em 2003, e a produtora foi formalizada em 2019.
O grupo produz curtas, médias e longas-metragens, além de vídeos institucionais. A proposta é contar histórias do território a partir de quem vive na região.
Entre as produções estão o longa “Botija”, inspirado em uma história real, e o filme infantil “Os Maluvidos”, que envolveu moradores, escolas e comerciantes locais.
Além das produções, o grupo investe na formação de novos profissionais. Integrantes ministram cursos gratuitos e atuam como facilitadores no Centro Cultural Bom Jardim (CCBJ).
Segundo o fundador, Josenildo Nascimento, a produtora surgiu para enfrentar a falta de oportunidades no setor. Ele afirma que ainda há poucos espaços para atuação profissional na área.
“Nossa ideia é fazer com que essas produções do território vão para longe, que as pessoas conheçam o Bom Jardim pela capacidade de produção cultural que ele tem, por esse universo cultural... porque aqui é um celeiro artístico”, pontua.
Saúde mental, cultura e pertencimento
Movimento Saúde Mental Comunitária do Bom Jardim oferece acolhimento a famílias em situação de vulnerabilidade e sofrimento emocional.
Lívia Vieira/Divulgação
Outro exemplo de transformação é o Movimento Saúde Mental Comunitária do Bom Jardim, criado em 1996. A iniciativa surgiu para oferecer acolhimento a famílias em situação de vulnerabilidade e sofrimento emocional, mas ao longo dos anos ampliou sua atuação para diversas áreas, incluindo arte, cultura e geração de renda.
Hoje, o movimento desenvolve atividades como terapia comunitária, oficinas de arte, projetos com crianças e adolescentes e ações de valorização cultural, além de formações profissionais.
Uma das frentes é a Casa AME (sigla para Arte, Música e Espetáculo), que trabalha com arteterapia por meio de atividades manuais como bordado, crochê e produção artesanal.
De acordo com a coordenadora da Casa AME, Balbina Lucas, os encontros funcionam como grupos terapêuticos que estimulam o processo criativo e o fortalecimento emocional dos participantes, em sua maioria mulheres. Segundo ela, muitas chegam ao espaço com a autoestima abalada e, ao longo das atividades, passam a reconhecer capacidades e desenvolver novas perspectivas de vida.
“Essas mulheres chegam lá de uma maneira... doentes mesmo, na maioria das vezes, com uma autoestima muito baixa. Então, a gente começa a trabalhar essa parte de artes, e elas vão se tornando grandes empreendedoras”, pontua.
Além do aspecto terapêutico, o movimento também incentiva a autonomia financeira. As produções artesanais são comercializadas na chamada “Bodega das Artes”, espaço que reúne peças feitas pelas participantes e contribui para a geração de renda.
Conforme Balbina, há casos de mulheres que, a partir da experiência no projeto, conseguiram estruturar seus próprios ateliês e passar a viver do trabalho artístico.
Moradora do Bom Jardim, Iara Braga conheceu o Movimento Saúde Mental em 2019, inicialmente como aluna de cursos de gastronomia. Foi nesse período que teve o primeiro contato com a Casa AME, onde acabou mudando completamente sua trajetória profissional.
Antes, ela empreendia com doces e pães. Hoje, trabalha com artesanato, especialmente com técnicas como macramê, crochê e bordado - tradicionais no Ceará.
Iara Braga é dona do ateliê Flor de Girassol.
Divulgação
Segundo Iara, o acolhimento e o incentivo recebidos na Casa AME foram fundamentais para essa transformação. Ela conta que se envolveu com a arte de forma tão intensa que passou de participante a facilitadora de oficinas, ensinando outras pessoas.
A experiência também trouxe mudanças pessoais: ela afirma que passou a se sentir mais confiante, organizada e determinada. Atualmente, Iara produz peças como bolsas, pulseiras e painéis decorativos, e comercializa seus produtos na Bodega das Artes.
“Eu sou muito feliz e realizada por tudo que posso usufruir do projeto, precisamos de mais locais como a Casa Ame. O espaço e a referência de que arte é cultura modificam vidas, resgatam autoestima e promovem qualidade de vida, além de unificar arte e terapia”, afirma.
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